domingo, 3 de maio de 2009

O que achou do colóquio?

Insira neste espaço os seus comentários sobre o colóquio.

sexta-feira, 1 de maio de 2009


Os nossos alunos, revelaram excelente actuação! Parabéns!

Claro que os seus professores devem estar orgulhosos.
Eis o Doutor Ivo Chelo na sua belíssima intervenção sobre o tema Evolucionismo vs Criacionismo!

E o segundo colóquio, no ver dos nossos convidados, superou o primeiro!


Da esquerda para a direita: Doutor Ivo Chelo, Doutor Miguel Panão e Doutor Jacinto Farias.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Parabéns!

É unânime o sucesso alçancado no primeiro cólóquio. Os alunos das turmas 10º6, 11º1 e 11º2 estão de parabéns pela qualidade da sua participação. Comportamento exemplar! As questões colocadas revelaram elevada capacidade de pensamento crítico.


Agostinho Botelho

segunda-feira, 16 de março de 2009

Textos para preparar o colóquio

Para preparar o colóquio estão disponíveis dois textos-base sobre os quais pode enviar os seus comentários e questões/dúvidas.
Aqui vai o texto I.
Agostinho Botelho
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A Luta de Darwin – Católicos, prestem atenção[1]
John Haught


“Nunca Charles Darwin foi tão popular como hoje em dia (…) a sua teoria de selecção natural é incontestavelmente aceite como a explicação correcta para a diversidade da vida na Terra”. No entanto, grande parte do mundo religioso ainda se debate com Darwin. Em Agosto de 1999, por exemplo, o Painel Educativo do Kansas (Kansas Board of Education), submetendo-se a pressões de “Cristãos Criacionistas”, decidiu que o tópico da Evolução (tal como referências ao Big Bang) não deveria ser incluído nos exames estatais de avaliação dos conhecimentos científicos dos alunos. Lamentando essa decisão, o conhecido paleontólogo de Harvard, Stephen Jay Gould comentou na revista Time que a remoção da Evolução dos currículos de Biologia assemelha-se a ensinar química sem a Tabela Periódica, ou a história Americana sem mencionar Lincoln (presidente dos EUA durante a guerra civil americana). Tanto a decisão do Estado do Kansas como a afirmação de Gould servem de base para alguns comentários relativos à questão da Evolução e Religião.
Para um grande número de Cristãos Americanos (mais de 40%), a visão de Darwin acerca da natureza ainda parece ser irreconciliável com as suas crenças mais profundas. Mesmo para além do desafio óbvio que a ciência evolutiva coloca à visão literal da Bíblia, não é muito difícil de perceber porquê. Antes de mais, porque as variantes que constituem a matéria prima para a evolução são consideradas completamente acidentais e não o resultado de uma inteligência divina. Depois, a “luta” competitiva pela qual os organismos mais fracos são rudemente eliminados revela um universo aparentemente sem a presença de compaixão divina. E a indiferença apresentada pela selecção natural sugere que vivemos num universo sem remorsos nem afecto, que dificilmente retrata o colo carinhoso de uma divindade providente. Se a isto tudo adicionarmos a ideia de que a vida e a mente surgiram de matéria irracional, sem grandes descontinuidades ao durante um período de milhares de milhões de anos, obteremos uma visão do universo completamente diferente da que é afirmada pelas nossas religiões tradicionais.
Como resultado de um contacto contínuo com as suas próprias descobertas, Darwin chegou a confessar que a descrença “apoderou-se” gradualmente dele próprio. E para muitos neo-darwinistas essa “descrença” parece ser uma implicação lógica da sua ciência. Nas palavras de David Hull, o processo evolutivo está cheio de “acasos, contingências, desperdícios, morte, dor e horror”. Um deus que crie ou que tome conta de um mundo Darwiniano tem de ser “descuidado, indiferente, quase diabólico”. Isto não é, diz Hull, “o tipo de Deus a quem qualquer pessoa rezaria”.
Na falta de uma teologia da evolução convincente, não só o estado biblicista do Kansas, mas também o mundo do pensamento religioso em geral tem tido dificuldade em lidar com Darwin. Ainda que a maioria dos teólogos não-criacionistas reconheçam o papel da evolução, e o próprio Papa tenha reconhecido a sua probabilidade, aqueles que assumiram a ciência de Darwin em profundidade são, parece-me, relativamente poucos. Mesmo fora dos círculos do fundamentalismo protestante, a antipatia em relação a Darwin parece estar a ganhar vigor em alguns meios religiosos. O jornal First Things é frequentemente palco de comentários anti-Darwinistas. Um editorial recente do Homiletic and Pastoral Review designou a ciência de Darwin como “um conto de fadas para adultos”. E o bioquímico católico Michael Behe conseguiu uma grande popularidade entre religiosos conservadores ao propor o “Intelligent design” como uma refutação científica do trabalho de Darwin.
Entretanto, mesmo os teólogos cristãos que são moderados e liberais evitam geralmente uma discussão profunda da evolução Darwiniana. Muitos condescenderão que “a evolução é a forma de Deus criar”, mas até o compromisso com esta afirmação requer que se excluam as características mais repelentes da visão perturbadora de Darwin acerca da vida. Grande parte da teologia contemporânea ainda não reconhece o óbvio: Darwin alterou completamente a forma de encarar Deus, até de acreditar em Deus.
No entanto, não só a reflexão teológica mas também a maioria do mundo intelectual ficou aquém de Darwin. Tal como nos relembrava o filósofo judeu Hans Jonas, a filosofia mantém-se cravada num materialismo completamente inadequado face à opulência da Evolução. Além do mais, convém referir que os materialistas evolutivos “iluminados” não são menos literalistas na interpretação da Bíblia do que a maioria dos membros do Painel Educativo do Kansas. Por exemplo, o filósofo Daniel Dennett, que já foi considerado como: “o nosso melhor filósofo actual”, declarou arrojadamente o seu apoio aos criacionistas, quando afirmam que a grande ideia de Darwin é incompatível com a Bíblia. “ A Ciência ganhou e a Religião perdeu” anuncia Dennett. “As ideias de Darwin afastaram o Livro do Genésis para o âmbito da mitologia retrógrada”.
De igual forma, o biólogo de Harvard E.O. Wilson expressa o seu espanto relativamente a que alguém procure reconciliar a Bíblia com a biologia. Tal como os criacionistas do Kansas ele coloca a ciência de Darwin em competição com o Génesis, que considera um trabalho que o desilude por não conseguir fornecer informação relevante acerca do mundo natural. Segundo Wilson, certamente que se as Escrituras fossem verdadeiras, elas não nos forneceriam uma visão tão incorrecta da natureza. O facto de não considerarem a evolução, “os autores bíblicos esqueceram-se da revelação mais importante de todas!”. Ainda que Dennett e Wilson possam diferir dos criacionistas ao declararem Darwin certo e a Bíblia errada, eles estão igualmente desfasados no tempo ao esperarem que esses textos antigos reflictam alguma ciência fidedigna.
Porém recentemente, um dos evolucionistas americanos mais conhecidos, Stephen Jay Gould, tem procurado fortemente distanciar-se daqueles neo-Darwinistas que são declaradamente ateus. Afirmando-se como agnóstico, Gould parece ter despertado para o facto de que, numa cultura que acredita em Deus, a educação científica dificilmente beneficia de uma ligação inevitável entre o trabalho de Darwin e a morte de Deus, tal como Dennet e o conhecido zoólogo Richard Dawkins fazem crer existir. Dennet e Dawkins gostam claramente de anunciar o ateísmo que eles afirmam estar subjacente à revolução de Darwin, enquanto que Gould considera esses argumentos usados e sem sentido.
No seu comentário na revista Time, Gould volta a insistir que não pode existir nenhum conflito entre fé e evolução. A ciência e a religião, afirma, referem-se a assuntos completamente díspares. Deveriam ser “parceiros iguais e mutuamente respeitadores, cada qual mestre do seu domínio, e sendo cada domínio essencial para a vida humana de formas diferentes”.
Deve dar-se crédito a Gould pela sua tentativa árdua de ultrapassar o fosso cultural que existe entre o mundo religioso e a ciência evolutiva. No entanto, um olhar mais atento à sua interpretação condescendente da religião levanta sérias questões relativamente ao valor do seu contributo.
O problema é que Gould nunca atribui à religião ou teologia qualquer tipo de conhecimento válido. A ciência, escreve ele na Time, é “uma pesquisa acerca do estado factual do mundo natural”. A religião, por outro lado, é uma “procura do sentido espiritual e dos valores éticos”. Ele não pondera a possibilidade da religião poder colocar-nos em contacto com a realidade transcendente, ou sequer revelar algo minimamente semelhante à verdade. A religião pode, no melhor dos casos, dar apenas um sentido moral à realidade.
Talvez esta posição seja já um progresso. A grande questão que se levanta é: pode-se afirmar que o Universo tem um sentido com a novidade trazida por Darwin? Gould rejeita essa possibilidade. Ele afirma que o difícil na “mensagem filosófica” de Darwin é que a vida não tem uma direcção predefinida, não existe um sentido no Universo e a matéria é a única coisa que existe. De acordo com Gould esta mensagem não pode ser dissociada da ciência de Darwin.
Afinal, por detrás da abertura de Gould, tal como para Dawkins e Dennett, só o materialismo e uma filosofia do absurdo servem de contexto à ciência evolutiva. Um mundo por si só sem sentido permite-nos enquanto humanos atribuir-lhe o sentido que quisermos e assim realizar o nosso potencial criativo. Se esta mensagem é inevitável a partir da teoria da evolução de Darwin então, de facto, nenhuma teologia poderá alguma vez viver em paz com a evolução.
Afinal, em que é que ficamos? A decisão do Estado do Kansas, a reluctância geral do pensamento religioso em enfrentar Darwin, e o evolucionismo materialista suportado pelos meios académicos mostram que interpretações teológicas não-criacionistas são desconhecidas tanto na comunidade científica como no mundo religioso. A teologia precisa de prestar mais atenção à evolução. Ainda que o literalismo bíblico seja sempre um obstáculo, o nosso pensamento religioso e a nossa educação deveriam pelos menos começar a mostrar mais claramente de que forma a visão Darwinista da vida poderá ser o que se espera de um mundo criado por um Deus de Amor Infinito. A ciência da evolução tem continuado a evoluir. É agora altura de uma teologia pós-Darwin mais rigorosa e acessível a todos.




[1] adaptado de John Haught (1999) “The Darwin struggle – Catholics, pay attention”, Commonweal, September, 24th

Textos para preparar colóquio


Aqui vai o segundo texto.


Agostinho Botelho


Texto I

Podemos acreditar em Deus e na Evolução? [1]
Ted Peters e Martinez Hewlett


Portanto, se estivermos correctos e visto a ciência ser, simplesmente, um método para descrever uma visão quantitativa do mundo que resulta em modelos testáveis, como é que todos se envolveram nesta confusão acerca da evolução? Qual é o problema?

Confundir Ciência e Filosofia
Muitas vezes falamos com cientistas e perguntamos acerca das suas posições filosóficas. Uma resposta muito comum é “Eu não tenho uma filosofia.” É claro que chamamos a atenção que não ter uma filosofia é, de facto, uma filosofia!
Mas, indo ao ponto essencial, a empresa científica possui, de facto, uma base filosófica, um conjunto de pressupostos e valores que sustentam o trabalho que é feito. Num capítulo anterior tentámos delinear o método da ciência. Este método pressupõe várias coisas: (a) existe ordem na natureza, (b) podemos, de facto, observar essa ordem, e (c) podem ser deduzidos modelos que providenciam explicações naturalistas para os fenómenos ordenados que se observam. Em tudo isto, o método científico preocupa-se exclusivamente com o mundo físico, isto é, com “tudo o que não é mente/espírito” (Descartes). Não há nada nesta decisão filosófica que impossibilita ou exclua a existência do não-físico ou do sobrenatural. Esta decisão provém de decisões anteriores, tomadas por cientistas sobre como proceder, qual o seu método ou abordagem.
A ciência moderna fez outra escolha metodológica. É mais fácil projectar experiências se nos focarmos em elementos do fenómeno, em vez de nos focarmos na complexidade do todo. Por exemplo, se quiseres compreender a célula num sapo, é relativamente fácil tirar uma célula e estudar os elementos que a constituem. O Marty [co-autor deste livro] é bioquímico e o seu treino em ciência foi sempre sobre os métodos para fazer isto e os tipos de modelos que podemos construir com os dados observados. Os filósofos chamam ao processo de aplicação de um método para estudar a célula, isolando as partes que a compõem, reducionismo metodológico. Neste caso, a ideia principal é que a ciência, de forma a ter um conhecimento maior da complexidade do todo, junta os blocos construtivos mais básicos que compõem esse todo. Por outras palavras, para compreender o todo, temos primeiro de entender as partes.
Agora, supõe que és um cientista a trabalhar nos elementos da célula. Tens modelos que explicam o comportamento das proteínas numa célula e até a sua genética em termos do ADN que se encontra no seu núcleo. De facto, a estrutura moderna da biologia está construída neste tipo de conhecimento sobre a função de tudo o que vive. Podes pôr-te a pensar, “ei, esta é uma informação muito poderosa. Olha para o que eu consigo fazer com estes modelos em termos da geração de experiências. Sabes, talvez a forma mais válida de compreender uma célula seja em termos das partes que a constituem.”
Se fizeres desta afirmação uma parte da tua forma de pensar acerca dos sistemas vivos, fizeste uma escolha filosófica, não científica. O que fizeste foi tomar uma decisão sobre qual o tipo de conhecimento válido naquilo que diz respeito à célula e a toda a vida. Em filosofia, o estudo dos sistemas de conhecimento chama-se epistemologia. Escolheste ser um reducionista epistemológico. Repara que esta não é uma conclusão científica; não se pode provar ser falsa. Nada tem a ver com a observação, ou método, ou mesmo construção de uma teoria e de um modelo. Tem a ver com uma reacção filosófica aos processos e resultados da ciência.
Supõe que o teu trabalho com os elementos da célula te conduz à compreensão da sua química e até da sua física. É claro que isto era o que tinhas pensado atingir como objectivo. Mas isso deu-se há muito tempo e já não pensavas nisso. É fácil ver como podes ficar convencido de que os elementos da célula e os átomos que a consituem são realmente tudo o que diz respeito a tudo o que vive. Podes começar a pensar que a matéria do universo é, de facto, tudo o que existe; não há nada para além disso.
Em filosofia, o estudo da essência ou ser das coisas chama-se ontologia. Por isso, até aqui tomaste a decisão filosófica de ser um reducionista ontológico. De novo, esta não é uma conclusão científica. Recorda-te do nosso acordo – a ciência deve-se pronunciar sobre o mundo físico. Logo, concluir que o físico é tudo o que existe é um erro lógico grande – é um argumento circular. Isto é, decidiste olhar apenas para o que é físico e depois concluíste que isso é tudo o que existe.
No processo de tomar estas decisões filosóficas, é possível que tenhas começado a olhar para o conceito de Deus como supérfluo. De facto, uma vez que estás convencido que nada existe excepto o que é material, o próximo passo é concluir que Deus não existe. A esta conclusão chamamos de ateísmo. E porque aceitas apenas o que é material como real, tornaste-te num materialista ateu.


Será necessário ser um materialista ateu para se ser cientista?

A resposta simples é “claro que não!” No fim de contas, o Marty é um cientista e não é um materialista ateu. Poderíamos apostar que a maior parte dos cientistas, se lhes perguntássemos, não se identificariam com esta filosofia. Bom, é verdade que as sondagens mostram uma percentagem mais elevada de agnósticos e ateus entre os cientistas, do que dentro da população não-científica. Mas esta estatística é também verdade para o mundo académico em geral.
A verdadeira questão que nos é dirigida é a seguinte, qual o passo no método científico que requer do cientista a declaração que Deus não existe? Se fores ao capítulo anterior, irás ver que o nosso método nada tem a ver com isto. Nós observámos, colocámos hipóteses, experimentámos, revimos, teorizámos. Tudo isto é feito para ter um modelo do mundo natural que possua poder explicativo e previsivo. Nada nesta metodologia requer qualquer tipo de compromisso religioso, nem pró- ou anti-Deus.
De facto, tudo o que é necessário para se ser cientista é uma curiosidade acerca do mundo natural e uma atracção pelo método científico como forma de compreender o mundo. O cientista, como qualquer pessoa, pode reagir às suas experiências de vida e, como resultado, ter uma determinada posição religiosa e filosófica. Alguns cientistas poderão olhar para os seus modelos da natureza e concluir que não existe Deus. Outros, olhando para os mesmos modelos, ficam espantados pela maravilha e beleza da criação de Deus.


Materialistas ateus e a batalha pelos nossos corações e mentes

Nalguns escritos e afirmações públicas daqueles que se posicionam como materialistas ontológicos ou ateus, tornou-se óbvio quererem que todos entrem no mesmo comboio. Do seu ponto de vista, se ao menos a sociedade se voltasse para uma filosofia ateísta, tudo seria resolvido.
Com este fim, escrevem dramaticamente que existe apenas uma forma de conhecer qualquer coisa real sobre o universo e apenas uma só forma válida de pensar sobre as coisas. Alguns exemplos.
Primeiro, existe o falecido Francis Crick, co-autor com James Watson do modelo do ADN, icone marcante da biologia moderna, que escreveu: “O objectivo último do movimento moderno em biologia é, de facto, explicar toda a biologia em termos da física e da química. (...) Eventualmente, pode-se esperar ter toda a biologia ‘explicada’ em termos do nível abaixo dela, e assim por diante até ao nível atómico.”
Depois existe Richard Dawkins, o cientista e divulgador da ciência em biologia evolucionária, que diz: “O universo que observamos tem precisamente as propriedades que deveríamos esperar se não existisse, no fundo, qualquer design, propósito, mal ou bem, nada senão uma cega e impiedosa indiferença.”
A seguir temos o filósofo da Universidade de Tufts, Daniel Dennet, que afirma: “a sabedoria prevalecente, expressa de várias formas e pela qual se argumenta, é o materialismo: existe apenas uma espécie de material, nomeadamente matéria, o material físico da física, química, e fisiologia, e a mente é um fenómeno físico.”
Existem até aqueles, como o biólogo de Harvard Richard Lewontin, que descaradamente admitem que este é um ponto de vista especificamente escolhido: “temos um compromisso à partida, um compromisso ao materialismo. ... O materialismo é absoluto, pois não podemos permitir um pé divino na porta.”
Curiosamente, os materialistas ateus, que se vêem como defensores baluartes da ciência estabelecida contra os assaltos daquilo que consideram o supersticioso fervor religioso, são capazes de um agrupamento humorístico de armamento retórico. Daniel Dennet dispara uma salva aos Cristãos conservadores que imita aquilo que percepciona estar a ser disparado para o seu lado. O direito religioso tem “dominado a arte da refutação por caricatura, e produz ataques súbitos a cada oportunidade de substituir, cautelosamente, articulações expressas pelos factos evolucionários, com simplificações demasiado sensacionalistas, com as quais buzinam e alertam o mundo.” Agora, perguntamos, quem está a dizer que a chaleira é preta? Certamente que estamos contentes de ler que no coração da batalha retórica, Dennet evita a “caricatura” e “simplificar demais.”


Será a ciência incompatível com o ponto de vista religioso?

Daniel Dennet está ocupado em alimentar os fogos de descontentamento entre ciência e religião. Para nós, não se entende porquê. Nós estamos a ser muito específicos em querer ver a ciência como não tendo o compromisso do materialismo que afirmam Dennet, Crick ou Lewontin. Em vez disso, nós insistimos que a ciência é uma viagem humana maravilhosa que explora o mundo natural e contrói os modelos explicativos que enriquecem a nossa compreensão do mundo. Não vemos qualquer necessidade de que isto esteja, de maneira alguma, em oposição à nossa fé em Deus. Pelo contrário, vemos a empresa científica como algo que deve inflamar o nosso desejo de conhecer Deus com maior profundidade.
No seu livro “A êxtase[2] de Deus”, Beatrice Bruteau escreve porque um Cristão contemplativo precisa de compreender a ciência. Ela diz: “a conclusão para a pessoa religiosa deve ser que o mundo é o trabalho de Deus mais pessoal, por isso, algo para nós conhecermos, admirarmos e reverenciarmos, tomarmos parte nele, contribuir em criar – uma vez que é feito como um universo que se auto-cria.”
Bruteau expressa deslumbramento acerca do mundo natural tal como é revelado pela ciência. Ela não vê qualquer incompatibilidade entre a sua fé Cristã e esse mundo. De facto, ela exige que os Cristãos devem interessar-se pelo mundo tal como a ciência o vê, porque é esse mundo pelo qual Deus se interessa.
Em particular, com referência ao modelo da biologia evolucionária, o teólogo de Georgetown John Haught escreve sobre “o dom de Darwin à teologia.” Ele argumenta que “o conteúdo central e original da fé Cristã providencia-nos uma imagem de Deus que não é só logicamente consistente com a imagem Darwiniana da vida, mas também fecundamente iluminativa.”
Esta é uma afirmação forte – Deus consistente com a imagem Darwiniana da vida? Como pode ser isto?
Haught desenvolve as suas ideias no enquadramento da sua fé Cristã Católica Romana. Ele diz-nos que esta criação é o resultado do infinito amor de Deus. O facto de estarmos ainda num processo de “dever ser” (becoming), ainda em criação, é um ponto central para compreender como a evolução se ajusta com a visão Cristã do mundo. Haught argumenta ainda que o amor de Deus vai tão longe que permitiu o Seu Filho tomar parte desta criação que ainda evolui. Deste modo, a incarnação e o sofrimento na cruz são vistos como cruciais à reconciliação entre a teologia e Darwin. Para Haught, aceitar a evolução com todas as suas implicações é essencial para a compreensão teológica do acto redentor de Cristo.
Por isso, a nossa curta resposta é sim; ciência e religião são compatíveis. Até mais do que isso, ciência e religião têm muito a dizer uma à outra.

[1] Capítulo 4, “Can you believe in God and Evolution?” (2006) de Ted Peters e Martinez Hewlett
[2] Êxtase entendida como movimento fora de si mesmo em direcção ao outro, não no sentido emotivo de experiência subjectiva de alienação de si mesmo. (N.d.T)